Evento: aniversário de 100 anos da Estrada de Ferro Mogyana

A ADECAC- Associação de Cultura e Artes de Cajuru, fazendo justiça à relevância que teve a existência da Estrada de Ferro Mogyana – Ramal de Cajuru – para todos os nossos cidadãos e os de arredores; pela prosperidade que trouxe à nossa cidade; pelo impacto socioeconômico que causou por todo o seu caminho; por ter deixado marcas indeléveis em nossa história; promoveu no dia 15 de junho de 2013 o “Evento Cultural 100 Anos Ramal Mogyana”.

Esse evento reproduziu entre as atividades culturais o fabuloso “Banquete de Inauguração” da Estrada de Ferro, realizado em Cajuru, em data de 08 de dezembro de 1912, obedecendo ao mesmo cardápio servido na ocasião, comida francesa com o acompanhamento sofisticado de seus vinhos, champagnes, licores e café. Um delicioso e inesquecível dia!

História da Fazenda Santa Cecília

Desenvolvida a partir de uma das maiores fazendas da época, a Fazenda Santa Carlota, fundada por José de Sampaio Moreira em 3 de novembro de 1899, a Fazenda Santa Cecília se tornou rapidamente na época uma das maiores produtoras de café da região.

Sólidos investimentos, como a plantação das melhores mudas, a escolha dos melhores terrenos, a construção de edifícios e recursos fundamentais para o desenvolvimento da cultura do café, como terreiro, tulha, armazéns e a estação de estrada de ferro, que ligava a Fazenda diretamente com o Porto de Santos para a exportação do produto, fizeram com que o seu crescimento fosse rápido.

Para acompanhar esse desenvolvimento, foram necessárias mais algumas adaptações, como a construção de uma colônia composta por 35 casas para abrigar os colonos vindos da Itália. A colônia era alimentada por energia elétrica própria, produzida em uma usina hidroelétrica instalada em uma queda d’água do rio que corta as terras da Fazenda.

No auge do café, seu conjunto arquitetônico ainda passou por mais uma expansão, incluindo a construção de: clube, farmácia, Igreja, escola, haras, piscina, casa de bonecas e uma sede bastante luxuosa que abrigava toda a família e seus convidados, sobretudo políticos e representantes da Igreja Católica. Após a reestruturação, a sede também passou a ser ponto de encontro e confraternização dos cajuruenses, que promoviam diversos piqueniques, festas e bailes.

Com 3.200 alqueires de terra, conquistados e adquiridos ao longo de décadas de história, a Fazenda que deu origem a atual Fazenda Santa Cecília ainda abrigava uma reserva florestal de 1.200 alqueires. Com uma vegetação típica de Mata Atlântica, a reserva se transformou anos mais tarde em um patrimônio ecológico, sendo tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico) e teve a boa parte de sua área total mantida como parte fundamental da própria Fazenda Santa Cecília.

Formada por 370 alqueires, a Fazenda Santa Cecília, pertencente a Sra. Cecília, neta de Sampaio Moreira, foi desenvolvida a partir da antiga sede da grande fazenda, segmentada devido à crise do café de 1929 e à contínua transição de poderes entre as gerações, que descendiam do seu patriarca.

Apesar de algumas reduções estruturais ocorridas, como a diminuição do número de casas dos colonos, atualmente a Fazenda Santa Cecília ainda possui um total de 10.000m² de área construída e que podem ser reutilizados normalmente mediante a uma simples restauração. Além disso, a Fazenda preserva a maioria dos equipamentos utilizados na produção do café e que ainda se encontram em funcionamento.
A propriedade também mantém 74 alqueires de mata nativa tombados pelo DPRN (Departamento de Proteção dos Recursos Naturais) que são utilizados por biólogos e estudiosos da USP – Universidade de São Paulo – como centro de pesquisas da fauna e flora nativa da região. Nesses estudos já foram registradas ocorrência de quatis, veados, tucanos, macacos e vários outros animais em risco de extinção, como a onça pintada.

Estação Mogyana

Foto antiga da estação

Inauguração da Estrada de Ferro Mogyana, para a grande festa de inauguração da Estrada de Ferro Mogyana – Ramal de Cajuru – a Câmara Municipal designou os senhores Capitão José Ferreira Diniz – Prefeito de Cajuru na época – o Major Carlos Figueiredo, Major Firmino Manço e o Sr. Rafael De Vita, como membros da “Comissão de Festejos”. A inauguração foi marcada para o dia 08 de dezembro de 1912.

O engenheiro responsável pela construção da ferrovia foi o Dr. José Pereira Rebouças, Inspetor Geral da Mogyana e filho de tradicional família paulistana, a quem eram dirigidos quase todos os pedidos relacionados à estrada de ferro. Um deles, por exemplo, foi o enviado pelo então Presidente da Câmara, Sr. José Cândido de Carvalho, onde manifestava o desejo de todos, “que o trem inaugural fosse comboiado pela locomotiva “Cajuru”, tendo como maquinista o empregado cajuruense, senhor José Peres e como pessoal do trem, os que trabalhavam nos setores D1 e D2 do ramal”.

O primeiro Chefe de Estação foi o Sr. Urias Teixeira; o primeiro maquinista, citado acima, José Perez; o primeiro guarda-trens, Sr. Graciano Lisboa, que posteriormente, foi proprietário do Bar Coimbra em Campinas; primeiro conferente, João Jacinto de Souza; primeiro médico da Mogyana, Dr. Antonio Alarico dos Santos.

Também solicitaram dois carros, sendo um de primeira classe, para transportar representantes do Governo do Estado e convidados oficiais e um de segunda classe, para a Banda Policial, ambos os vagões ligados ao trem inaugural. O pacote de pedidos incluía também, passagem e frete grátis ao pessoal e pertences da “Rotisserie Sportsman”, sofisticada empresa contratada pela Câmara Municipal, para o fornecimento do Banquete de Inauguração, no Clube Renascença.

O Senhor Nenê Tincani na década de 90, deu em minhas mãos, um presente raro para o Memorial: o Convite para o Banquete. É uma preciosidade!

Vejam como foi requintado o cardápio:
Canapé de Caviar, Potage Solferino, Garopa Sportsman, Vol-au-vent “Cajuru”, Filet de Marcassin St.Germain, Asperges sauce Hollandaise, Dinde à la Paulista, Bombe Pralinée, Gâteau Idéal, Fromages, Fruits, Café. Vinhos Madère, Niersteiner, Pontet-Canet, Pommard, Pommery,Cordon Rouge, Veuve Clicquot, Liqueurs e Cigares.

Esse incrível banquete custou aos cofres públicos à exata quantia de 8:770$000 (oito contos, setecentos e setenta mil réis)! Aproximadamente, uns R$ 180,00 a 200,00 por pessoa.

À Comissão de Festejos foram entregues 1:690$900 (um conto, seiscentos e noventa mil e novecentos réis) para despesas de viagem, frete e condução das compras feitas em São Paulo, para a grandiosa comemoração.

Também se pagou ao Sr. Olávio de Figueiredo a quantia de 820$000 (oitocentos e vinte mil réis) pela construção de três coretos erguidos na Praça Floriano Peixoto para as festividades do dia (a Praça Floriano Peixoto é o nosso atual Largo São Bento, que naquele tempo ainda não tinha Coreto, pois o de hoje, só foi construído em 1925).

Consta também no Livro de Correspondência, a deliberação da Câmara em designar o Exmo. Juiz de Direito de Cajuru, Dr. José Thiago de Siqueira, para um dos principais oradores da festa.

Meu pai, o Zeca Arena, tinha na ocasião sete anos e meu tio Virgílio apenas cinco e sempre mantiveram intactas as lembranças desse dia! Um passo largo, imenso, em direção ao progresso para Cajuru e região.

Meu avô, Domingos Arena está na fotografia da inauguração, tendo ao colo o meu tio Romeu.

Viajei muitas vezes pela Mogiana e tenho guardadas as sensações da infância. O cheiro da fumaça, as fagulhas, as surpresas do novo… paradas nas estações, vendedores de todo tipo de bugigangas e novidades, o lanche farto e delicioso que a gente já queria comer assim que o trem partia…o apito alegre, as pessoas felizes, vestidas com toda elegância para sua viagem de trem!

“Abrir estradas é unir povos e trazer progresso”. Essa máxima herdada de americanos e propagada aos quatro cantos do Brasil em tempos passados custou a todos nós a extinção das estradas de ferro. Era preciso dar incentivo máximo à indústria automobilística!

Que ironia! “No carregamento de um trem, cabem oitenta cargas de caminhão” dizia inconformado meu tio Virgílio!

Em 1966, pouco depois da festa do Centenário de Cajuru, o nosso querido trem deu seu longo e último apito… O maquinista em sinal de adeus, foi apitando até a Estação da Itaoca. As famílias cajuruenses choraram nesse dia, como se chora a partida de um filho querido…

Uma grande verdade Adélia Prado diz:
“O trem de ferro é uma coisa mecânica
Mas atravessa a noite, a madrugada, o dia!
Atravessou minha vida,
Virou só sentimento…”

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